Se a roncopatia, que traduz uma obstrução à normal passagem do ar durante a respiração, pode ser bastante incomodativa, mais frequentemente para o parceiro. mas também pode acordar o próprio doente, os eventuais eventos respiratórios que podem acompanhar o ressonar podem ter consequências importantes para a saúde do sono, mas também para a saúde geral do indivíduo.
Durante o sono existe um relaxamento normal dos músculos da fonação e da deglutição que podem levar até 40% do colapso das vias respiratórias. No entanto, este estreitamento das vias aéreas pode ser mais extenso ou até mesmo total. Nesta última situação estamos perante uma apneia obstrutiva do sono. Na situação em que existe apenas uma limitação parcial à normal passagem do ar durante a respiração durante o sono falamos em hipopneia. Porque os indivíduos estão a dormir e não têm consciência de que estão a respirar mal, ocorre uma diminuição da saturação de oxigénio no sangue e despertares ou microdespertares (despertares tão breves que não se tem consciência de que ocorrem, mas que contribuem para a fragmentação do sono). Estes despertares mesmo que muito breves, estimulam o sistema nervoso simpático que leva à libertação de adrenalina que provoca aumento da frequência cardíaca, subida da tensão arterial, sudorese ou até mesmo cefaleias. Pela manhã o indivíduo vai acordar cansado porque o sono foi bastante disruptivo, pode sentir-se sonolento ou até mesmo que as suas funções cognitivas não estão no seu melhor – não consegue concentrar-se, não consegue focar-se, não consegue pensar!
Quando se faz o diagnóstico de síndroma de apneia obstrutiva do sono realiza-se também a avaliação da gravidade da doença – ligeira, moderada ou grave. O risco cardiovascular correlaciona-se diretamente com a gravidade desta doença, sendo os doentes com doença grave o que têm um maior risco cardiovascular.
Uma vez que este problema respiratório ocorre apenas durante o sono e a doença progride habitualmente de forma lenta, o doente desconhece que tem o problema e pode passar vários anos até que o doente procure ajuda médica. É frequente recusar a ideia de que ressona (até ouvir o seu próprio ressonar gravado por exemplo num telemóvel) mas também a ideia de que tem um problema de saúde. Muitas vezes só após o problema diagnosticado e tratado é que os doentes se apercebem o quanto dormiam mal e o quanto essa situação era disfuncional no seu dia a dia.
A síndroma de apneia obstrutiva do sono associa-se muitas vezes ao excesso de peso e aumento da circunferência do pescoço, mas não só! Algumas pessoas são magras, mas possuem vias aéreas naturalmente muito estreitas. Indivíduos que possuem familiares com história de apneia do sono têm duas vezes mais risco de terem o mesmo problema. O consumo em excesso de álcool e substâncias como as benzodiazepinas, ao contribuírem para o relaxamento muscular, podem agravar os eventos respiratórios durante o sono.
O tratamento da síndroma de apneia obstrutiva do sono depende da gravidade da situação, mas tem sempre como principal objetivo manter as vias respiratórias abertas e melhorar a qualidade do sono do doente. A perda de peso está obviamente sempre indicada nos casos em que existe excesso de peso. Nas situações ligeiras e moderadas poderá estar indicado o uso de dispositivos de avanço mandibular que os doentes utilizam durante o sono e que permite avançar a mandíbula e impedir o bloqueio das vias aéreas ou correções cirúrgicas na via aérea. Nas situações graves a única solução verdadeiramente eficaz é um ventilador que fornece uma pressão de ar que impede o colapso das vias respiratórias.
A mensagem fundamental é que no final o doente deve passar a dormir melhor e a acordar com mais energia do que acontecia antes do problema identificado e tratado. Se algum destes pontos não foi cumprido, então algo falhou e a situação clínica deve ser repensada e a estratégia terapêutica corrigida.